sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Passos de Luz



Nas tribulações ou discórdias, recordemos a necessidade de certo donativo: o primeiro passo para o reajuste da harmonia e da segurança.

Isso significa para nós um tanto mais de amor, mesmo quando nos cerque a incompreensão.

Por vezes, o lar em tumulto reclama a tranquilidade, ante a discórdia entre pessoas queridas.

Em outras circunstâncias, são companheiros respeitáveis em conflito uns com os outros.

Em algumas situações, é o estopim curto da agressividade exagerada nesse ou naquele amigo, favorecendo a explosão de violência.

Noutros lances, é o tormento de algum coração nobre ferido, porque ainda tisnado pelo orgulho.

Recordemos a misericórdia que todos recebemos de Deus, a cada trecho da vida.

Aparece a aflição? – Mais compreensão.
Ocorrem prejuízos? – Trabalhemos com vigor.

Em todas as situações, nas quais o mal entreteça desequilíbrio, tenhamos a coragem do primeiro passo, em que a serenidade e o amor, a humildade e a paciência nos garantam de novo a harmonia do Bem.

        
Emmanuel - Chico Xavier

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Eu Achava Que o Choro Era Ruim



A experiência de uma mãe e seu bebê nos traz reflexões muito profundas e importantes. Diz-nos ela:

É que eu achava que o choro era ruim. Eu achava que o choro tinha que parar. E acho que é isso que aprendi: não precisa.

Existem, sim, motivos para o choro: desconforto de temperatura, fome, fralda, refluxo, doença, sono. Mas existe o choro que não cessa após checar tudo o que pode estar errado.

E esse choro, que pode durar horas até, esse choro não é errado. E se hoje eu pudesse rever esses dias de maternagem, talvez me preocupasse menos em silenciar o choro de minha filha e mais em acolher suas lágrimas.

Talvez eu me focasse menos em ficar dizendo “shhhh”, balançando Clarinha de um lado pro outro do quarto, tentando todas as táticas possíveis, me sentindo incapaz de consolá-la, e decidisse aceitar o seu choro, sua voz, como eu procuro aceitar a de qualquer amigo que me procura em prantos.

Entender que não se pode resolver a dor do outro, mas sempre se pode acolhê-la.

Entender que o choro às vezes não é dor, mas adaptação a esse mundo de sons, cheiros, luzes e pessoas, a que o bebê não está acostumado.

Entender que, quando não se fala, não se balbucia e não se gesticula, só existe o choro como comunicação.

E quantas vezes as minhas tentativas de cessar o choro me impediram a verdadeira conexão com a minha filha?

O quanto o simples ato de abraçá-la e permitir que ela chorasse o que precisava, sabendo que eu estava ali com ela, presente, integralmente presente, sem procurar distraí-la, teria sido tão ou mais eficiente do que tentar táticas e truques para ela parar de chorar?

O quanto aquele choro não era um pedido por mais presença com intenção e coração, uma necessidade de dar um basta nas incômodas visitas pós-parto, um desejo de proximidade e o luto pela separação de não estar mais dentro de mim, segura e protegida?

Choro é emoção. Não quero ensinar a ela que o choro é errado. Que as emoções são erradas, que sentir é inadequado. O choro é normal.

*   *   *

Se percebermos bem, adquirimos este hábito de fazer tudo para que o choro cesse o quanto antes. Tanto o nosso chorar como o de alguém que nos é caro.

O choro é incômodo, é constrangedor, em nossa cultura, e ele precisa ser represado com uma urgência e um desespero injustificáveis – se pensarmos bem.

Não paramos para pensar que o choro tem seu momento. É algo que precisa sair e precisa de tempo para isso.

Melhor para fora do que para dentro, disse alguém, um dia, consolando uma pessoa que se desculpava por não ter conseguido segurar as lágrimas.

Sim, nós pedimos desculpas por nos emocionarmos... Muito estranho. 

Como se fosse sinal de fraqueza.

Chorar é bom. Chorar é importante. Chorar é terapêutico.Aqueles que guardam anos e anos de lágrimas constroem doenças para si. É isso mesmo: ficamos doentes porque represamos emoções.

E no que diz respeito à dor do outro, que muitas vezes não conseguimos resolver, que às vezes teríamos vontade de tirar com as mãos se pudéssemos – quando é de um filho, de um pai, de uma mãe – essas dores podemos acolher. Podemos compartilhar lágrimas e dizer: Estou com você.

Acolher o choro de alguém sempre será gesto profundo de amor. 


Redação do Momento Espírita

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O que Passa e o que Permanece



Há poucos dias eu me mudara para minha nova casa.

Os móveis haviam chegado e precisavam ser montados. Contratei, portanto, os serviços de um marceneiro.

Era um homem experiente e esforçado. Em apenas três dias conseguiu montar sozinho os móveis do quarto, sala e cozinha.

E gostava muito de conversar também. Entre uma martelada e outra, um parafuso ajustado, puxava os mais diversos assuntos.

De vez em quando falava de política. Em outros momentos, discorria sobre as vantagens de seu time favorito de futebol. Ainda, falava sobre o tempo, atualidades e a última notícia sensacionalista dos jornais.

Mas, sem dúvida, seu assunto predileto era sua família. Gostava de contar sobre a dedicação de sua esposa e da inteligência e educação dos seus filhos. Seus olhos brilhavam de orgulho e felicidade.

Entretanto, naquele terceiro dia, ao chegar à minha casa para concluir a montagem dos móveis, percebi que havia algo diferente no seu semblante.

Trabalhou o dia todo praticamente em silêncio e, porque me preocupei com tal mudança de comportamento, questionei-o sobre o que estava acontecendo.

Aquele não havia sido um dia fácil para ele: de manhã, seu veículo de trabalho havia apresentado problemas e, por isso, ficaria vários dias na oficina mecânica.

Quando estava no ponto de ônibus, aguardando o transporte que o traria à minha casa, um assaltante lhe furtou a caixa de ferramentas.

E, como se não bastasse, sua carteira estava na caixa. Dessa forma, todos os seus documentos haviam sido extraviados também.

Por isso, ele estava extremamente irritado, o que justificava o seu silêncio.

Quando ele terminou seu trabalho, em solidariedade aos acontecimentos tristes daquele dia, lhe ofereci uma carona para casa, pois sabia que ele estava muito cansado. Agradecido, ele aceitou.

Ao chegarmos, ele me convidou para entrar, a fim de que eu conhecesse sua família.

Em frente à residência, havia uma majestosa árvore. Antes de abrir a porta de sua casa, o trabalhador se recostou nela por breves momentos e, depois disso, seu semblante mudou, o que me causou grande espanto.

Entrou em casa sorrindo, beijando a esposa e os filhos, e, para variar, falando muito.

Ela me convidou para o jantar e a noite foi muito agradável.

Ao me despedir, envolto pela curiosidade, o questionei sobre a árvore e aquela mudança radical de atitude.

Sorrindo, ele me respondeu: Aquela é minha árvore dos problemas. 

Quando chego à minha casa, eu deixo todos os meus problemas nela, de forma que não os desconte em minha família, pois de nada eles têm culpa.

Amanhã, quando eu for trabalhar, os pego novamente e, com a ajuda de Deus, saio para resolvê-los.

*   *   *

Embora as situações difíceis que se apresentam no dia a dia, cultivemos sempre o bom ânimo com aqueles que estão ao nosso redor.

Não deixemos que nossos problemas se transformem em palavras rudes, impaciência, falta de carinho, amor, compreensão, ternura.

Pois o dinheiro, o estresse, as metas a se alcançar vão-se embora... Mas a família, os amigos, momentos de cumplicidade ao lado daqueles que nos amam e a quem amamos, esses sim são eternos...

Pensemos nisso... Mas pensemos agora!

Redação do Momento Espírita

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Penhor de Fé



Não te surpreendam as dificuldades nem as incompreensões na esfera da. ação em que te encontras a serviço da Era Melhor do Espírito Imortal. Todo empreendimento que visa a modificação de estrutura ultramontana do erro experimenta a reação contrária da própria fôrça em atuação.

Apontas ásperas lutas e duras provas, referes-te a desencantos e dubiedades, arrolas desassossego e evasão, abisma-te em desaire e amargura como se desejasses um jardim florido para aspirar aroma e não uma gleba a transformar-se em seara de bênçãos, toda por inteira.

Considera, porém, que a lâmina que produz desgasta-se, a pedra que atrita destrói-se, o lume que clareia consome o combustível de sustentação, o corpo que se desenvolve e cresce para a glória do espírito caminha para o sepulcro...

Tudo são permutas incessantes.

Átomo a átomo agrega-se à molécula.

Célula a célula compõe-se o órgão.

Partícula a partícula forma-se o vegetal.

Vibração a vibração aglutinam-se as fôrças do Universo.

O sol que nos sustenta aniquila-se paulatinamente ao converter massa em energia para o equilíbrio e manutenção dos astros que gravitam na sua órbita... Assim, também, ocorre no campo das aspirações morais.

A excelência dos nossos ideais se revela no testemunho que deles oferecemos.

Começamos e recomeçamos tarefas de sublimação até atingirmos o ápice da libertação, resgatando todos os débitos.

Por essa forma, cada qual respira no clima elaborado pelo pensamento e cultivado pela vontade.

Ante o que fazer, não te aquietes no já feito.

Fase ao produzir em nome do amanhã, evita a paisagem do passado.

Projetando o bem esquece o mal, que em última análise é apenas o bem ausente.

Não desfaleças, não retrocedas, porque as tuas aspirações sofrem a baba da injúria e as tuas expressões são entendidas como acicates que no entanto não esparzes.

Reverenciando Jesus, a Quem procuras atender e cujo amor te incendeia a alma em pleno despertar, agradece todo empeço e azedume que te apareçam, perdoando sempre, porquanto, testemunhando a legitimidade dos teus propósitos, o perdão que ofertes é oportunidade para ti mesmo, como perdão de Nosso Pai na direção dos teus desejos.

*

"Tende fé em Deus!" Marcos: capítulo 11º, versículo 22.

*

"A verdadeira fé se conjuga à humildade; aquele que a possui deposita mais confiança em Deus do que em si próprio, por saber que, simples instrumento da vontade divina, nada pode sem Deus". Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 19º - Item 4.


 Divaldo Pereira Franco - Joanna de Ângelis


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Recordações Felizes




A senhora acordou pela manhã e abriu a janela. O sol entrou sorridente, inundando o recinto. Ela parou por alguns momentos, olhando a paisagem que se desenhava à distância, entremeada de telhados de casas, alguns prédios, as árvores, nuvens entrecortando a monotonia do azul do céu.

E tudo lhe surgiu à mente, de forma rápida, como num caleidoscópio de imagens sucessivas e sequenciais: a casa de madeira, o jardim onde os cravos disputavam a beleza e o perfume com as margaridas, as rosas e os jasmins, o pomar com tantas árvores.

Árvores que estavam habituadas a ter a criançada dependurada em seus galhos, saboreando as frutas da estação: laranjas, caquis, ameixas amarelas, uvas, pêssegos, maçãs, romãs.

Distante infância, pensou ela. E, ao mesmo tempo, parecia tão próxima. 

Como haviam transcorrido céleres os anos e quantas mudanças haviam ocorrido em sua vida...

Logo, um hausto de saudade lhe invadiu a alma e ela recordou dos irmãos queridos que haviam partido, um a um, num lapso temporal relativamente curto. E pensou como poderia ter usufruído ainda mais das suas presenças.

Sim, haviam sido anos de convivência amorosa, contudo, lembrava, quantas vezes poderia ter alongado a permanência ao lado de um, de outro, mais algumas horas.

Mas, não o fizera: Eram os compromissos de variada ordem que lhe solicitavam a presença aqui, acolá.

Lamentava agora, enquanto a saudade mais estreitava o seu abraço e as lágrimas, traduzindo a emotividade, estavam prestes a romper a represa dos olhos, onde tremeluziam.

Quanta saudade! Como seria bom tê-los, junto ao seu coração, nesse dia que deveria ser somente de alegrias. Era o dia do seu aniversário. E eram várias décadas a se somar, mais de meio século passado.

O pensamento voou para outras questões e recordou os amigos que haviam rumado para a Espiritualidade, colegas com os quais compartilhara bancos escolares, outros que haviam ombreado tarefas e ações na empresa em que servira tantos anos...

Pensou em quando ela mesma haveria de partir. Estaria preparada? Ela vira tantos amores dizerem adeus, selarem os lábios da carne para sempre e atravessarem os umbrais da morte, triunfantes.

Então, ergueu a alma em prece, agradecendo pela vida que desfrutava, pelo dia que apenas começava e que, com certeza, seria coroado de flores, cumprimentos, abraços.

E rogou ao Senhor da vida para que lhe permitisse mais alguns anos sobre a abençoada face da Terra, que esses anos fossem plenos de trabalho, de produção no bem, de progresso, de ascensão.

Dirigindo o pensamento aos amados, sentindo-os adejarem ao seu redor, igualmente saudosos, deu-se conta de que eles ali estavam, para cumprimentá-la pela vitória de ter vencido mais trezentos e sessenta e cinco dias, na carne.

Sim, era uma grande vitória. Cada ano totalmente vivido, aproveitado, é uma vitória. E, por isso, ela encheu os pulmões de ar, sorriu feliz e iniciou a contagem das horas para o novo dia.


Redação do Momento Espírita