domingo, 23 de novembro de 2014

A Exata Conjugação do Verbo Amar


Eles permaneceram casados por sessenta e dois anos. Um casamento complicado.
Ele era alcoolatra. Gostava de cantar e sempre tinha uma brincadeira, na ponta da língua, que divertia os amigos e conhecidos.
Era uma pessoa maravilhosa para todos, menos para a esposa. Batia nela, até a filha de oito anos começar a se impor e impedir as agressões.
Um dia, ele vendeu a casa onde moravam. Sumiu por uns tempos e, quando retornou, sem nenhum centavo, avisou que a casa deveria ser desocupada em vinte e quatro horas porque o novo proprietário viria tomar posse.
A esposa passou frio porque quase não tinha agasalho. Passou fome pois deixava de comer para que os filhos se alimentassem.
Sofreu traições porque ele, homem bonito, se permitia aventuras. Ameaçava-a de morte e dormia com um punhal embaixo do travesseiro.
Com tanto sofrimento, natural que, no transcorrer dos anos, o tempo a abraçasse com alguns problemas como insônia e depressão.
Os que a conheciam a amavam porque ela ria, brincava, semeando ao seu redor a alegria, que ela mesma não podia fruir.
Portadora de uma grande fé, espalhava o bem para as pessoas, fossem crianças ou adultos.
Perante os doentes, ela ia passando a mão, com delicadeza, na cabeça, nas mãos, enquanto orava com fervor.
Logo, eles afirmavam se sentir bem.
Certa feita, indo a uma consulta e narrando seu drama conjugal, a médica indagou:
Qual seu sentimento para com seu marido? A senhora o ama?
A filha, que a acompanhava, teve certeza de que ela responderia negativamente. A resposta que veio, depois de pensar uns segundos, foi surpreendente:
Como homem, não o amo. Como filho necessitado, sim!
A filha chegou às lágrimas ao reconhecer, uma vez mais, a grandeza daquela mulher.
Certo dia, aquele homem que gozara de tantos prazeres, teve um acidente vascular cerebral e foi hospitalizado. Os filhos se revezaram à sua cabeceira, no seu atendimento.
Mas a senhora também foi ao hospital. Ele estava entubado, incomunicável. Somente os aparelhos bipando, de forma regular, atestavam a sua estabilidade orgânica.
Ela chegou e tomou a mão dele entre as suas. E começou a falar.
Os aparelhos, de imediato, registraram a alteração dos batimentos cardíacos, que dispararam para mais de cem por minuto, a respiração acelerou.
Tudo isso dizia da consciência da presença dela ali. Ela falou das suas limitações como esposa, das suas dificuldades.
E lhe pediu perdão por tudo e de tudo. Depois, disse que ele poderia partir em paz porque ela o perdoava.
Interessante que ela não enumerou nenhuma das deficiências dele. Ao contrário, falou somente das próprias dificuldades.
Naturalmente não enalteceu virtudes que ele não possuía, mas de nada o acusou.
Depois, o convidou a orar com ela. Quando concluiu suas longas preces, deu-lhe um beijo na testa e desejou que ele ficasse com Deus.
Ela saiu. Poucas horas depois, ele partiu.
*   *   *
Pessoas assim existem muitas, neste imenso mundo de Deus. Anônimas.
Deixam lições inesquecíveis aos filhos, aos familiares, aos amigos, a quem goza a ventura de sua convivência.
Pessoas assim sabem, com certeza absoluta, a exata conjugação do verbo amar.
 

Redação do Momento Espírita

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Rastros


Os que estudam a fauna e nesse estudo se esmeram, sabem reconhecer, identificar os animais pelos rastros que deixam em sua passagem: as pegadas, os dejetos, as construções ou a destruição.
Os homens, igualmente, por onde passam, deixam suas marcas.
Há os que realizam, felizes, viagens turísticas e vão marcando o caminho com o que não mais necessitam ou de que se serviram: latas, papéis, cascas de frutas. Tudo jogado pela janela do carro ou deixado na areia, no campo ou na montanha.
Itens que vão assinalando a sua passagem. Parece que, quais os meninos que temiam não encontrar o caminho de volta para casa, necessitam deixar marcas precisas pelo caminho, a fim de poderem retornar, em outro momento.
Quem segue atrás de pessoas que assim se portam, logo reconhece que aquelas não primam pela educação e que não se importam com mais ninguém que consigo mesmas.
São pessoas que vivem no mundo como se somente elas existissem, que não atentam para o bem-estar alheio, com o dia seguinte, com o local em que vivem.
São essas mesmas que não se preocupam em colaborar com a coleta seletiva do lixo, que não economizam água mesmo em épocas de crise de abastecimento.
Para essas, o fato de pagar pelo consumo lhes dá o direito de usufruir sem limites, sem pensarem se o que desperdiçam, fará falta a outras comunidades.
São criaturas que não têm consciência de que a Terra é um único e grande lar de uma só Humanidade. Pessoas que não pensam no amanhã, que não se preocupam com a sustentabilidade do planeta, com o mundo do futuro.
Mas existe um outro tipo de marcas que, igualmente, deixamos no mundo.
São as marcas morais. Não são visíveis senão para os que têm olhos de ver, os que veem o seu entorno e com ele se importam.
Essas marcas são determinadas pelo comportamento, a conduta.
Cada um de nós, onde se situe, impregna, com suas vibrações, o local. Por isso mesmo, alguns somos muito benquistos, outros, nem tanto.
Alguns somos prestativos, simpáticos, de tal forma que nossa ausência é sentida, por mínima que seja. É percebida a falta do nosso sorriso, da nossa graça, do nosso bom humor. E nos recordam, rememorando procederes e ações que nos caracterizam.
Assim, se desejamos marcar nosso caminho com pegadas luminosas, comecemos hoje o exercício da gentileza.
Um sorriso, um por favor, obrigado, podem ser o início. E nos tornemos mais prestativos, solidários, amigos.
Francisco de Assis deixou impregnada de vibrações positivas a Porciúncula. Até hoje, quem a visite, se aquieta espontaneamente, sentindo bem-estar.
A nós cabe a decisão de registrar nossa passagem com as coisas positivas ou negativas.
 
*   *   *
 
Deixemos nossas marcas de bondade nas alheias vidas para que, mesmo após nossa partida da Terra, elas prossigam apontando caminhos de segurança, iluminando a estrada.
Um gesto de bondade poderá estimular a muitos.
Nossa palavra afetuosa poderá sustentar quem se encontra abraçado ao desânimo.
Nossa fortaleza moral poderá se constituir em apoio a quem está prestes a soçobrar.
Hoje, enquanto aqui estamos, marquemos de forma indelével nossa passagem.
Amanhã, os que percorrerem as mesmas veredas, encontrarão pontos luminosos de esperança, otimismo, bem-estar.
Pensemos nisso desde hoje, desde agora.
 

Redação do Momento Espírita.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Qual é a sua causa?


Uma revista traz estampada em sua capa uma questão direta e provocante: Qual é a sua causa?
Logo abaixo da pergunta tema da matéria principal, um pequeno texto explicativo:
Todo mundo pode fazer a diferença. E nem precisa mudar o mundo. As maiores lutas estão no dia a dia.
No corpo do periódico, o texto da matéria começa declarando:
Doar sangue, cabelo, alegria ou tempo. Resgatar a autoestima, um animal, um sonho ou uma vida. Conheça histórias de pessoas que descobriram diferentes razões para viver e uma mesma felicidade – a de ajudar.
Logo em seguida, lemos diversos relatos de pessoas e suas causas nobres. Algumas muito singelas, mas todas extremamente importantes.
Uma mulher deixou o cabelo crescer e depois doou para pacientes em tratamento quimioterápico.
Um homem liderou o projeto de tombamento do bairro onde nasceu e cresceu.
Mulheres que, para defender a causa do parto humanizado tornaram-se doulas, ou seja, mulheres que dão suporte físico e emocional a parturientes.
Um adolescente acompanha a mãe numa atividade de contar histórias, brincar e conversar com crianças carentes, filhos de dependentes químicos.
E muitos outros vão surgindo, desenhando suas belas causas, produzindo como que uma pintura indescritível que só o bem é capaz de retratar.
Talvez possamos nos perguntar: Será que todos nós precisamos ter alguma causa? Não é suficiente apenas viver bem, amar, cuidar da família, respeitar o próximo?
Para um grande número de pessoas, possivelmente sim, mas não sentimos dentro de nós uma vontade de fazer algo mais? Um vazio que, por vezes, nos desanima e não sabemos o que é?
Se já somos suficientemente esclarecidos, se já conhecemos a mensagem do Cristo, se já entendemos os propósitos da vida, da encarnação, do planeta, será que não podemos fazer algo mais do que vimos fazendo?
Não precisa ser nada grandioso, como afirma o próprio texto da reportagem. Pode ser algo em nossa comunidade, algo que faça de nós um agente de união, de civilidade, de bom senso.
O mundo precisa de líderes bons, que façam mais do que falem.
Estamos cansados dos que falam, prometem, têm bela oratória e não honram seus dizeres.
Queremos o silêncio das boas ações.
Assim, trazemos este suave convite: abracemos uma causa qualquer. Aquela com a qual mais nos identifiquemos.
Entreguemo-nos a algo sem interesse próprio, doando nosso tempo, nossa energia, e descubramos o quanto isso pode fazer bem aos outros e a nós mesmos.
O gesto de levantarmos uma bandeira para defendermos uma causa em que acreditamos, verdadeiramente, nos enche de vitalidade, o coração bate diferente e nos inunda com saúde.
Defender uma causa é dizer não à indiferença que teima em querer nos tornar zumbis da modernidade, repletos de informação, repletos de conhecimento, mas pobres no sentir.
Importemo-nos com algo. Importemo-nos com nosso próximo. Importemo-nos.
Qual é a sua causa?
 
Redação do Momento Espírita

domingo, 16 de novembro de 2014

Um Bom Sentimento no Coração


Dois meninos caminhavam ao longo de uma estrada, que se estendia através de um campo.
À beira do caminho viram um casaco velho e um par de sapatos surrados.
Ao longe vislumbraram o dono que trabalhava naquele campo.
O rapaz mais novo sugeriu que eles escondessem os sapatos, se escondessem eles mesmos, e ficassem ali observando a expressão de surpresa do dono, quando retornasse.
O menino mais velho achou que isso não seria tão bom.
Ele disse que, pelo aspecto da roupa e dos sapatos, o dono deveria ser um homem muito pobre.
Então, depois de falarem sobre o assunto, por sua sugestão, concluíram que tentariam outra experiência: ao invés de esconder os sapatos, iriam colocar uma moeda de prata em cada um, e observar o que o dono faria quando descobrisse o dinheiro.
E foi o que fizeram.
Logo, o homem regressou do local onde trabalhava, colocou seu casaco, calçou um pé em um sapato, sentiu algo duro, levou-o para fora e encontrou um dólar de prata.
Maravilha e surpresa brilharam em seu rosto.
Ele olhou para a moeda uma vez e outra vez, virou-se e não conseguiu ver ninguém ali por perto.
Em seguida, calçou o outro sapato.
Para seu grande espanto, encontrou outra moeda de prata.
Ele começou a chorar, ali, sentado sobre o campo.
Em seguida ajoelhou-se, e ofereceu em voz alta uma oração de agradecimento, na qual falou de sua esposa que estava doente e sem esperança, e sobre seus filhos, indefesos, sem comida.
Fervorosamente, agradeceu a Deus por essa graça, vinda de mãos desconhecidas, e evocou as bênçãos dos céus sobre aqueles que lhe deram a ajuda de que precisava.
Os meninos permaneceram escondidos até ele ir embora. Haviam presenciado toda a cena.
Eles tinham sido tocados por sua oração, e sentiram um calor dentro de seus corações.
Enquanto saíam a pé pela estrada, disse um ao outro: Então, realmente, você não tem um bom sentimento no coração?
*   *   *
Haverá dia em que todos nós, sem exceção, entenderemos porque há apenas um caminho, o caminho do bem.
Haverá dia em que apenas esse tipo de felicidade interior irá nos saciar, em que não mais buscaremos preencher os vazios da alma de outras formas.
Haverá dia em que compreenderemos Jesus e Sua mensagem maior, resumida no amor, simplesmente no amor: a Deus, ao próximo e a nós mesmos.
Enquanto esse dia não chega cabe-nos realizar as pequenas conquistas, dar os primeiros passos, viver as primeiras felicidades autênticas possíveis na Terra.
Percebamos em nosso coração o sentimento que predomina quando podemos ser úteis a alguém, quando, de alguma forma, significamos algo na vida de outra pessoa.
Analisemos esse sentimento, tentemos compreender de onde ele vem, tentemos compreender de onde vem a alegria de ouvir um Você é muito importante para mim.
O amor já está na Terra há muito tempo. Não é segredo para ninguém. Não é propriedade dos sábios, dos doutos. Ele está aí, esperando por mim, esperando por você, esperando por nós.


Redação do Momento Espírita

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O Mundo Perfeito


Se as crianças pudessem reinventar o mundo, podemos imaginar como seria?
Certa feita, ouvimos uma garota de sete anos, falar a respeito.
Segundo ela, deveria haver um tobogã para descer do apartamento para a lan house. Facilitaria.
E, na lan house, bastaria falar os sites e eles apareceriam, automaticamente. Preguiça de digitar?
Não, é que algumas pessoas não sabem escrever direito e assim todos poderiam acessá-los para navegar.
Bem se vê que ela estava preocupada com quem demonstrava algumas dificuldades.
Na rua, haveria malabaristas e bailarinas. E grandes borboletas, que poderiam ser montadas pelas crianças. Mas teriam que ser borboletas de cara bonita.
Assim, todos teriam acesso a brincadeiras e seriam felizes.
Nas praças, haveria música de todo tipo. Isso possibilitaria que cada qual ouvisse a que mais gostasse.
Os fios de luz não dariam choque e, toda vez que se encostasse neles, se poderia formular um desejo.
Com isso, ficaria eliminado o perigo que atravessam algumas crianças, por ignorância ou descuido de quem as deveria proteger.
E, conforme a sua lógica, se nunca é tarde para se começar a fazer coisas boas, então nunca é tarde para dormir.
Isso, naturalmente, dito em causa própria, nessa vontade de ficar até mais tarde nas brincadeiras, ou em frente à televisão.
Sim, se as crianças pudessem, alterariam muitas coisas no mundo.
Acabariam as guerras, porque criança se desentende com o amigo agora, briga, diz que nunca mais falará com ele para, logo depois, buscá-lo e tornar a brincar.
É a lição da boa vizinhança, do perdão, da diplomacia.
Acabariam as disputas por terras e pedaços de terra. Afinal, não seria legal poder brincar em todas as praças do mundo, visitar todos os parques do mundo, nadar em todos os rios?
Tudo seria compartilhado, dividido, usufruído em conjunto.
As barreiras linguísticas seriam superadas, de forma rápida, porque nada mais fácil para uma criança do que se entender com a outra, quando deseja brincar. E, de igual forma, uma aprende com a outra o idioma.
Haveria menos preocupações com festas dispendiosas e mais simplicidade porque o importante numa festa é reunir os amigos, brincar até cansar.
Depois, se sobrar tempo, pode-se comer cachorro-quente, pizza, sanduíche, bolo de chocolate ou pão com manteiga.
O importante são as brincadeiras, é o desfrutar da companhia dos amigos por horas. E não perder um minuto sequer de nenhuma delas.
O sono seria profundo, fruto do cansaço prazeroso.
E não haveria tanta preocupação com roupas, porque o que as crianças desejam é estar confortáveis para correr, pular, subir em árvores, chutar bola, jogar-se na piscina.
Não importa se a roupa é de grife ou comprada no mercado próximo, ficará suja logo, logo, com tanta poeira e suor.
*   *   *
Seria bom que, por vezes, olhássemos com mais atenção para as crianças, que as ouvíssemos, que lhes seguíssemos alguns exemplos.
A vida, com certeza, se tornaria menos complicada.
E talvez aprendêssemos a ser mais descontraídos, menos sisudos, a dedicar menos horas ao trabalho e um pouco mais ao prazer de estar com a família, com os amigos.
Pensemos nisso.
 

Redação do Momento Espírita, com algumas frases escritas
por Marina Costa Macedo, aos sete anos de idade.