segunda-feira, 25 de maio de 2015

Considerações Sobre a Vingança




A vingança é uma espécie de justiça bárbara, de tal maneira que quanto mais a natureza humana se inclinar para ela, tanto mais deve a Lei exterminá-la.
Porque a primeira injúria não faz mais que ofender a Lei, ao passo que a vingança da injúria põe a Lei fora do seu ofício.
Estas são algumas considerações do filósofo e ensaísta inglês Francis Bacon sobre esse movimento de revide do mal, que ainda tem tanto poder em nós.
Ele acrescenta: De certo, ao exercer a vingança, o homem iguala-se ao inimigo; mas, passando sobre ela, é-lhe superior; Porque é próprio do príncipe perdoar.
O que passou, passou, e é irrevogável; Os homens prudentes já têm bastante que fazer com as coisas presentes e vindouras; não devem, portanto, preocupar-se com bagatelas como o trabalhar em coisas pretéritas.
Porque hei-de ficar ressentido com alguém, apenas pela razão de que ele mais ama a si próprio do que a mim? E se alguém me fez mal, apenas por pura maldade, então, esse é unicamente como a roseira e o cardo que picam e arranham apenas porque não podem de outra forma proceder.
Destas sábias colocações, que refletem igualmente o pensamento cristão, retiramos reflexões muito importantes:
Você sabia que quando se vinga, torna-se igual, ou mais baixo que seu ofensor?
Você sabia que quando não aceita uma ofensa, ou um mal qualquer, este mal permanece com quem o criou e não o atinge?
Você sabia que quando gasta seu tempo, suas energias, planejando e cultivando sentimentos de vingança, deixa de produzir o bem?
Por isso, é tempo de tomarmos o controle de nossas emoções, de domarmos nossos sentimentos inferiores, percebendo que só temos a ganhar se deixarmos de odiar.
Este é o início do perdão.
Talvez você ainda não esteja preparado para perdoar certas coisas que lhe aconteceram, por serem recentes ou mesmo muito traumáticas. Não se preocupe.
O perdão é um processo. Um passo de cada vez. E o primeiro passo trata da autopreservação, isto é, de cuidar da sua saúde, física e mental, pois quem guarda mágoa está se envenenando, diariamente, sem saber.
Assim, o primeiro passo é: deixe de odiar.
Conforme tão bem disse o pensador citado:
Porque hei-de ficar ressentido com alguém, apenas pela razão de que ele mais ama a si próprio do que a mim? E se alguém me fez mal, apenas por pura maldade, então, esse é unicamente como a roseira e o cardo que picam e arranham apenas porque não podem de outra forma proceder.
Sim, há pessoas num estado de desequilíbrio tão avançado, enfermos da alma, que só conseguem agir dessa forma, infelizmente.
Ainda irão despertar, ainda terão que se corrigir e arcar com suas responsabilidades, mas, não será o ódio, nem a vingança, que irão conseguir esse intento.
Por isso, siga adiante... Você é maior do que tudo isso.Você não merece viver encarcerado no ódio. Pense em sua saúde, pense em sua família, nos que o amam verdadeiramente. Esses lhe querem ver bem, e não adoecido.
É preciso ser maior do que a vingança, do contrário ela nos consumirá aos poucos.

Redação do Momento Espírita

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Presente sem igual


Ele era um foragido. Um judeu em meio ao tormento da Segunda Guerra Mundial.
Todos os dias sua consciência o acusava de covardia. Covardia moral por ter abandonado sua mãe, seus primos, quando lhe foi acenada a possibilidade de sobreviver, ocultando-se.
Por que somente ele? – Perguntava-se diariamente.
E todos os dias se desculpava com o casal que o mantinha escondido no porão frio naquele inverno interminável.
Desculpava-se por ter pensado mais na própria vida do que no risco a que expusera ambos, ao pedir asilo.
E havia a criança. Uma adorável menina que acabara de completar doze anos.
Naqueles dias de tanta carestia, ela ganhara do pai um livro usado. Que tesouro!
Ele, o sobrevivente, se desculpara por não lhe dar nada. Afinal, nada tinha de seu.
Liesel, a garota encantadora, se aproximara e enrodilhara os braços em torno do pescoço dele:
Obrigada, Max.
Ela era a aniversariante e ele ganhava o presente.
Ao contato daquele abraço, ele levantou as próprias mãos e as encostou nos ombros de Liesel.
Aquele abraço lhe falava de afeto, família, carinho. Tudo tão distante, perdido na névoa dos meses, do medo e das incertezas diárias.
Nos dias que se seguiram, ele decidiu que lhe daria um presente.
Por isso, tomou do livro escrito por Hitler, que recebera para se instruir e destacou quarenta páginas.
Imaginou que precisaria de treze mas, como deveria cometer alguns erros, resolveu se prevenir com maior número.
Da pilha de latas de tinta que o ocultava, destacou uma, abriu-a e pintou cada uma das páginas, deixando-as a secar em um varal improvisado.
Na sequência da semana, ele desenhou e escreveu a história de um fugitivo. A sua história.
E de seu encontro com uma menina que lhe ofereceu afeição. A ele, um judeu em terreno alemão.
As páginas receberam dois furos na margem, feitos à faca e depois foram unidas com barbante.
Então, numa madrugada silente, ele deixou seu esconderijo, subiu os degraus, foi ao quarto da menina e depositou a preciosidade ao lado da cama.
Ao despertar, vencendo o medo e o frio, ela desceu os degraus da escada. Embora não passasse de alguns metros, a distância pareceu de quilômetros.
O coração lhe batia descompassado no peito. Ela colocou sua mão no ombro dele, que dormia.
Não o despertou. Sentou-se, reclinou a cabeça, dobrando-se sobre si mesma e continuando com a mão no ombro dele, deixou-se ali ficar como quem vela o sono de alguém precioso e inestimável.
Nascia naquele momento uma verdadeira e profunda amizade.
*   *   *
A afeição surge de formas inusitadas, em estranhas situações.
Percebê-la, manifestar gratidão e alimentá-la é decisão pessoal.
Por vezes, gestos pequenos expressam sentimentos profundos.
Pensemos nisso e prestemos maior atenção a detalhes que somente parecem ser insignificantes.
Sobretudo, que haja sempre flores de gratidão no jardim das nossas palavras, no sol do sorriso e nos gestos, em retorno ao doador que nos agracia com sua oferta.
Pensemos nisso...
 

Redação do Momento Espírita, com base na pt. IV do livro A menina que roubava livros, de Markus Zusa

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Um Artista de Imaginação Delirante




Você já observou, alguma vez, um caracol, andando com sua casa às costas?  A concha, em verdade, lhe abriga os órgãos e é uma proteção extra contra a desidratação e os predadores.
Em condições adversas, o caracol recolhe o pé e a cabeça para dentro dela. Sela a abertura com um muco espesso, podendo se colar a superfícies. Por isso, os encontramos presos a troncos, folhas ou muros.
O caracol é um dos moluscos mais comuns. Contudo, existem muitas espécies que, calcula-se, vivam no mar há cerca de quinhentos e cinquenta milhões de anos.
O que encanta, em verdade, nessas criaturas de corpo mole, é exatamente a sua proteção, a concha calcária.
Existem colecionadores que pagam fortunas por algumas dessas preciosidades. As formas, as cores, o brilho são inigualáveis.
A superfície das denominadas conchas cipreas, por exemplo, levou os navegadores portugueses, que as encontravam, de forma abundante, na costa africana, a pensar que era a partir delas que os chineses fabricavam a porcelana. Daí, o seu nome popular de porcelanas.
Uma variação dessa espécie foi definida por um estudioso como uma obra de arte somente concebida por um artista de imaginação delirante. Ela traz, no dorso, um padrão que faz lembrar um delicado mosaico duma antiga civilização, ao qual se sobrepõem misteriosas manchas escuras.
Apresenta, ainda, um mosaico de ladrilhos menores e mais esparsos. Finalmente, a base mostra pintas escuras num fundo quase branco, semelhantes ao que se vê na zona do ventre de muitos felinos, como o leopardo e o jaguar.
Nativa do Oceano Índico, existe também na Austrália e o seu tamanho varia entre dois a oito centímetros.
Existem ainda as conchas em forma de cone, que incluem centenas de espécies distribuídas por todo o mundo. Coloridas por fora, têm o interior raiado de madrepérola.
Maravilhas infindáveis da natureza!
Conchas caprichosas com imagens em alto relevo, que representam um rosto que parece ser de uma mulher, ou a que se assemelha a uma imagem de Cristo, alcançam, no mercado, o valor de até três milhões de euros.
O homem pode tomar dessas belezas e as polir, enaltecendo ainda mais o seu aspecto.
Contudo, as mais de cinquenta mil espécies existentes apresentam sutilezas, detalhes únicos, que extasiam os colecionadores e os fazem desejá-las.
Muitos homens se dedicam a encontrá-las, recolhê-las, classificá-las, estudá-las. Alguns, pelo puro prazer de decifrar e admirar os mistérios da natureza. Outros, pelo valor que podem adquirir no mercado.
E existem aqueles que, admirando tais belezas somente recordam do Artista de imaginação delirante. E erguem louvores ao Senhor da Vida. A Quem idealizou tudo isso, inesgotável em Sua Criação.
Esses cogitam que, enquanto o homem dorme, Deus esculpe arabescos nas conchas e inventa novas cores para as enfeitar.
Em oração, exclamam: Senhor Deus, Pai dos céus e de toda a Terra. Ajuda-nos a entender a Tua grandeza. Permite-nos agradecer a riqueza que nos ofereces, a oportunidade do estudo e o prazer do descobrimento.
Afinal, neste dia que apenas desponta, que maiores maravilhas ainda nos reservas? O que fizestes, Senhor dos mares, enquanto nós dormíamos?


Redação do Momento Espírita

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Num Dia Como o de Hoje



Num dia como o de hoje, crianças desvalidas morrerão sem sonhos e sem pão... Mas, também, almas generosas poderão ser vistas auxiliando os órfãos a se tornarem menos tristes.
Num dia como o de hoje, mães herdarão os troféus de guerras sangrentas... Porém, em algum lugar, uma outra agradecerá a Deus pelo filhinho que respira.
Num dia como o de hoje, um assassino enlouquecido marcará com sangue a sociedade que o repele e o odeia... Porém, não longe da iniquidade, transbordará a graça de milhares de atos silenciosos de renúncia.
Num dia como o de hoje, um convite à corrupção chegará aos seus ouvidos intranquilos... Mas, um olhar amigo chamará você à reflexão.
Num dia como o de hoje, bactérias resistentes trarão medo e desafios difíceis... Porém, no deserto de desilusão, alguém semeará a confiança.
Num dia como o de hoje, você poderá ouvir centenas de inverdades desesperadoras... Mas, bastará enxergar o céu, o sol, a chuva, o mar e a criança dormindo, para que você perceba as mãos do Altíssimo sobre tudo e sobre todos.
Num dia como o de hoje, almas desequilibradas estimularão sua paciência e sua capacidade de exercer o bom aprendizado... Porém, não desista se a recaída da intempestividade se fizer presente.
Num dia como o de hoje, talvez você pense em desistir de um sonho superior, talvez até escute o convite amargo do pensamento suicida... Mas, por favor, espere até amanhã, não desista assim...
Num dia como o de hoje, todos nós estivemos sujeitos a derrapar no caminho, e quem sabe até derrapamos. Porém, já nos propomos a refletir e a gentilmente ouvir mensagens como esta... Portanto, hoje estamos, sem dúvida, melhores do que ontem.
Num dia como o de hoje, ainda há chances de acrescentar uma estrela luminosa em nossa trajetória na escola da vida...
Num dia como o de hoje, poderemos saltar séculos para a felicidade plena, ou atrasar a caminhada com milênios de arrependimento.
*   *   *
São nossas as escolhas.
Escolhemos ver a vida apenas através das lentes do pessimismo, ou escolhemos ver o lado bom de tudo.
São nossas as escolhas.
Escolhemos crescer, aprender, modificar. Ou escolhemos estagnar, conformar, permanecer.
São nossas as escolhas.
Lembremos sempre disso.

*   *   *

Toda escolha que você faça pelos caminhos da sua vida terrena, apresentará aos que o cercam e acompanham o grau da sua maturidade, o nível dos seus ideais, a qualidade de tudo quanto o sensibiliza.
Será consequente que os seus irmãos de jornada passem a conceber imagens suas, caricatas ou não, em função do que você elege para a sua existência.
Sobre o mundo você será sempre o retrato dos seus gostos, dos seus interesses, das suas ações.
Cada gesto seu conduzirá um retrato do que você é, um recorte dos seus comportamentos.
Bom será que esses gestos demonstrem equilíbrio, bom senso, harmonia, para que alcancem a felicidade após serem vistos e observados por incontáveis criaturas.


Redação do Momento Espírita

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Crianças e Nós



Muitos setores das ciências psicológicas asseveram que é indispensável preservar a criança contra a mínima coação, a fim de que venha se desenvolver sem traumas que lhe prejudicariam o futuro. Isso, no entanto, não significa que deva crescer sem orientação. 
Independência desregrada gera violência, tanto quanto violência gera independência desregrada. 
Releguemos determinada obra arquitetônica ao descontrole e teremos para breve a caricatura do edifício que nos propúnhamos construir. 
Abandonemos a sementeira a si própria e a colheita se nos fará desencanto. 
Exigimos a instituição de um mundo melhor. 
Solicitamos a concretização da felicidade comum. 
Sonhamos com o levantamento da paz de todos. 
Esperamos o reino da fraternidade. 
Como atingir, porém, semelhantes conquistas sem a criança no esquema do trabalho a realizar?
Não mergulhará teus filhos nas ondas revoltas da ira quando a dificuldade sobrevenha, e sim não te omitirás no socorro preciso, sem deixá-lo à feição de barco desarvorado ao sabor do vento. Não erguerás contra ele a palavra condenatória nos dias de desacerto, a insuflar-lhe, talvez, ódio e rebeldia nos recessos da alma, e sim procurarás sustentá-lo com a frase compreensiva e afetuosa que desejarias ter recebido em outro tempo, nas horas da infância, quando te identificavas nas sombras da indecisão. 
Sabes conduzir a criança ao concurso da escola, à assistência do pediatra, ao auxílio do costureiro ou ao refazimento espiritual nos espetáculos recreativos. Por isto mesmo não lhe sonegues apoio ao sentimento para que o sentimento se lhe faça correto. 
Concordamos todos em que a criança necessita de amor para crescer patenteando mente clara e o corpo sadio, entretanto, é impossível efetuar o trabalho do amor - realmente amor - sem bases na educação.


Chico Xavier - Emmanuel