terça-feira, 30 de setembro de 2014

Lições das Árvores



Se as árvores pudessem falar, o que nos diriam? Que segredos poderíamos saber a partir dos seus relatos?

Elas resistem aos temporais, ao calor, às chuvas, aos ventos. Muitos se abrigam sob sua sombra, servem-se dos seus frutos.

Quantas gerações sobem em uma mesma árvore, através dos anos?

De uma forma romântica, quando olhamos para uma pintura de Auguste Renoir, Paysage aux collettes, e vemos, em primeiro plano, duas árvores retorcidas, retratando uma paisagem do local em Cagnes-sur-mer, que ele transformara em sua residência de inverno, não podemos nos furtar a imaginar as árvores que o terão inspirado.

E se pudéssemos entrevistar uma delas, que nos poderia dizer dessa genialidade que foi um dos maiores mestres da pintura impressionista, ao lado de Degas e Monet?

Talvez nos confidenciasse algo mais ou menos assim: Eu posei para Renoir. Foi minha natureza selvagem que atraiu a atenção daquele gênio.

Quatro séculos de vento e sol na Provença, na França, me deram o formato contorcido. Mas eu morreria se não fosse ele.

Em junho de 1907, ele comprou a terra debaixo das minhas raízes, em Les Collettes e impediu que um horticultor cortasse todas as árvores para plantar cravos.

Ele transformou este local em seu refúgio para o trabalho e a vida doméstica.

Na época, Renoir tinha sessenta e seis anos e já andava como um velho. 

Os filhos o carregavam para se sentar nas minhas raízes com seu cavalete.

Certo dia, eu o ouvi se queixar de mim ao seu marchand, Ambroise Vollard: “As oliveiras são horríveis de pintar.

Se você soubesse a dificuldade que tenho com esta aqui...
Ela tem tantas cores, nada é cinza. As folhinhas minúsculas realmente me fizeram suar! Uma lufada de vento e o tom muda.”

E, no entanto, ele me imortalizou. Poderei ser arrancada algum dia, ou ceder aos golpes de um machado cruel, e não morrerei.

Minha essência foi captada por ele e colocada na tela, em especial colorido.

E, embora Auguste Renoir reclamasse de mim, posso afirmar que fomos irmãos. Seus dedos deformados pelo reumatismo se pareciam com os meus galhos.

Há muito ele se foi, mas não esqueci um segundo do tempo que passamos juntos.

*   *   *

Seria verdadeiramente maravilhoso se entrevista deste gênero se pudesse concretizar. Seriam tantas as informações que nos poderiam fornecer as árvores que assistiram batalhas notáveis, com vencedores e vencidos; Ou as árvores das ruas, que veem passar as crianças, se tornarem adultos e terem seus próprios filhos.

Que nos poderia confidenciar aquele resistente carvalho polonês, crescido à entrada de um quartel, que se transformou em um campo de concentração nazista?

Quantas vítimas passaram sob seus galhos? Quanta fumaça dos fornos crematórios terá respirado?

Sim, elas não podem falar. São testemunhas mudas. No entanto, nos dão a lição da serenidade pois assistem beleza, morte, tristeza, com a mesma serenidade.

Acompanham o decorrer do tempo e não lastimam a soma dos anos. Em sua imobilidade, nos lecionam resistência. E, não importando a maldade ou a bondade das criaturas, oferecem a mesma sombra, os mesmos frutos, servindo sempre.

Pensemos nisso. Aprendamos com elas.


Redação do Momento Espírita

domingo, 28 de setembro de 2014

Prece Pela Perseverança


Senhor, meus sonhos me pertencem até o momento em abro mão deles, os abandono!... Nem sempre procedo assim porque quero, porque descobri novos objetivos em minha vida, muitas vezes, desisto no meio do caminho por insegurança, medo, por temor de me expor, de assumir o êxito do empreendimento. Há em mim, infantilmente, uma covardia que não sei como extirpar, um comodismo que me faz dar de ombros os meus projetos mais caros, qual fossem eles, de repente, destituídos de valor maior para mim...
Depois, Senhor, são lágrimas, arrependimento, uma certa inveja de quem apostou e venceu, uma raiva de mim mesmo, uma mágoa pela minha fraqueza que eu sei a causa do naufrágio de todos os meus sonhos e ideais!...
Por isso venho até a Tua sublime presença implorar auxílio ao meu espírito frágil, venho à Ti pedir que faça mais arrojado e perseverante, mais forte e determinado.
Sei que são virtudes que não poderei adquirir repentinamente; sei que elas virão através das situações que criarás para mim, visando meu fortalecimento e segurança, e que nem sempre serão situações de fácil assimilação.
Por isso, Senhor, antes que eu me ponha a lamentar as lições que Tu me enviarás, por certo, para que eu adquira o bem da perseverança, ajuda-me também a corrigir em mim o hábito da reclamação.
Que eu Te reconheça nas provas que virão para me auxiliar e as praticando, me torne perseverante como o desejo e assim, com destemor e fé, eu realize a minha felicidade, como ela deve ser!...

Assim seja!
(Oração recebida no Instituto André Luiz em 04.12.2002)

sábado, 27 de setembro de 2014

Um Sábio Ambicioso



Posto nunca tivesse provado as cruciantes angústias da miséria, a Sra. B..., de Bordéus, teve uma vida de martírios físicos, em conseqüência de inumerável série de moléstias mais ou menos graves, a contar da idade de 5 meses. Vivendo 70 anos, quase que anualmente batia às portas do túmulo. Três vezes envenenada pela terapêutica de uma ciência experimental e duvidosa, em ensaios feitos sobre o seu organismo e temperamento, arruinada, ao demais, pelos remédios tanto quanto pela doença, assim viveu entregue a sofrimentos intoleráveis, que nada podia atenuar. Uma sua filha, espírita-cristã e médium pedia sempre a Deus para suavizar-lhe as cruéis provações. Foi porém aconselhada pelo seu guia a pedir simplesmente a fortaleza, a calma, a resignação para as suportar, fazendo acompanhar esse conselho das seguintes instruções:

"Nessa vida tudo tem sua razão de ser: não há um só dos vossos sofrimentos, que não corresponda aos sofrimentos por vós causados; não há um só dos vossos excessos que não tenha por conseqüência uma privação; não há uma só lágrima a destilar dos olhos, que não seja destinada a lavar uma falta, um crime qualquer.

"Suportai, portanto, com paciência e resignação as dores físicas e morais, por mais cruéis que elas se vos afigurem. Imaginai o trabalhador que, amortecidos os membros pela fadiga, prossegue no trabalho, porque tem diante de si a dourada espiga, outros tantos frutos da sua perseverança. Assim, a sorte do infeliz que sofre nesse mundo; a aspiração da felicidade, que deve constituir-se em fruto de sua paciência, torná-lo-á resistente às dores efêmeras da Humanidade. Eis o que se dá com tua mãe. Cada uma das suas dores acolhida como expiatória, corresponde à extinção de uma nódoa do passado; e quanto mais cedo as nódoas todas se extinguirem, tanto mais breve ela será feliz.

"A falta de resignação esteriliza o sofrimento, que, por isso mesmo, teria de ser recomeçado. Convém-lhe, pois, a coragem e a resignação, e o que se faz preciso é pedir a Deus e aos bons Espíritos que lha concedam. Tua mãe foi outrora um bom médico, vivendo num meio em que fácil se lhe tornava o bem-estar, e no qual lhe não faltaram dons nem homenagens. Sem ser filantrópico, e, por conseguinte, sem visar o alívio dos seus irmãos, mas cioso de glória e fortuna quis atingir o apogeu da Ciência, para aumentar a reputação e a clientela. E na consecução de tal propósito não havia consideração que o detivesse.

"Porque previa um estudo nas convulsões que investigava, sua mãe era martirizada no leito de sofrimentos, enquanto que o filho se submetia a experiências que deveriam explicar uns tantos fenômenos; aos velhos abreviava os dias e aos homens vigorosos enfraquecia com ensaios tendentes a comprovar a ação de tal ou qual medicamento. E todas essas experiências eram tentadas sem que o infeliz paciente delas soubesse ou sequer desconfiasse. A satisfação da cupidez e do orgulho, a sede de ouro e de renome, foram os móveis de tal conduta. Foram precisos séculos de provações terríveis para domar esse Espírito ambicioso e cheio de orgulho, até que o arrependimento iniciasse a obra de regeneração. Agora termina a reparação, visto como as provas dessa última encarnação podem dizer-se suaves relativamente às que já suportou. Coragem, pois, porque se o castigo foi longo e cruel, grande será a recompensa à resignação, à paciência, à humildade.

"Coragem, a todos vós que sofreis; considerai a brevidade da existência material, pensai nas alegrias eternas.

"Invocai a esperança, a dedicada amiga dos sofredores; a fé, sua irmã, que vos mostra o céu, onde com aquela podeis penetrar antecipadamente. Atrai também a vós esses amigos que o Senhor vos faculta, amigos que vos cercam, que vos sustentam e amam, e cuja solicitude constante vos reconduz para junto dAquele a quem haveis ofendido, transgredindo as suas leis."

Nota - Depois de haver desencarnado, a Sra. B... veio dar, tanto por sua filha como na Sociedade de Paris, muitas comunicações, nas quais se refletem as qualidades mais elevadas, confirmando os seus antecedentes.


Allan Kardec - O Céu e o Inferno




quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Amar é Sofrer?




Quem disse que “amar é sofrer” jamais amou.

O beijo do ar da madrugada desperta a vida que dorme.

O sorriso da lua engrinaldada de estrelas diminui as sombras.

A carícia do sol vitaliza todas as coisas.

E a chuva que lava a terra, e reverdece o chão, e abençoa o mundo, correndo no rio, esvoaçando na nuvem esgarçada, são as tuas expressões de amor, construtor real, demonstrando o teu poder, a tua grandeza e a minha pequenez.

Quem ama, sempre doa, e não sofre, porque ama.

Quem diz que amar é sofrer ainda está esperando pelo amor e jamais amou.

*   *   *

As palavras do poeta Tagore são fortes. Desafiam todos os autores que até hoje cantaram, emocionados, as dores do amor.

E foram tantos... E ainda são.

O amor do mundo sempre esteve vinculado à dor, pois sempre foi um amor apego, um amor posse, um amor desespero.

Agia-se no ímpeto por amor, e lá vinha a dor. Esperava-se indefinidamente por amor, e lá se iam anos de sofrer silencioso.

Nossa arte revela isso de forma magistral: o ser humano tentando sobreviver amando dessa forma.

Chegamos ao ponto de nos autoflagelarmos por ele, ou ainda, de acabar com nossa própria vida, por não suportar tal vil pesar. E o pior, achamos isso belo, romântico...

Imaturos fomos, assim como o que chamamos de amor ao longo das eras também o foi.

Inventamos um tal deamor à primeira vista, para justificar paixões retumbantes, apenas desejos ardentes muitas vezes...

Alguns ainda, aprenderam a chamar o ato da união sexual em si, de fazer amor, como se em toda coabitação ele estivesse obrigatoriamente presente – quem dera...

Entendemos pouco de amor.

E não foi por falta de bons exemplos.

Recebemos na Terra o Espírito que irradiava amor, e que proclamou esta palavra aos quatro ventos, de uma forma inesquecível.

O amor do qual Jesus falava era esse amor doação, o amor ágape.

Pode haver sofrimento em nosso coração ainda por algum tempo, mas não por amar, e sim, apenas por não sabermos amar de forma devida.

São nossos vícios que trazem as dores. O amor só traz alegria e paz, pois é responsável pela consciência pacificada.

A carícia do sol vitaliza todas as coisas e o amor verdadeiro é este sol, que sempre vitaliza e nunca enfraquece.

Nas piores noites o sorriso da lua engrinaldada de estrelas diminui as sombras. É novamente o amor, consolando, dando esperança, e jamais provocando mais escuridão.

É tempo de conhecer melhor o amor, agora que podemos ser mais maduros, que entendemos que não possuímos as coisas nem as pessoas; agora que entendemos que não estamos aqui para ter, mas para ser.

Ainda estamos esperando pelo amor, é certo, porém, cada movimento que fazemos em direção ao outro, deixando de lado o vício do egoísmo e do orgulho, é um passo que damos até ele.

E talvez logo descubramos que não fomos nós que esperamos pelo amor durante todo esse tempo, mas ele que sempre esperou por nós...


Redação do Momento Espírita

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Mãos Aveludadas de Deus




Ele estava no ônibus urbano. Jovem, vestia a camisa dez da seleção de futebol. O amarelo se destacava na condução lotada.

Chamou atenção a criança que ele trazia ao colo, pelos gritos estranhos que emitia, a espaços regulares. Denotava ser portadora de deficiência, algum problema que, na qualidade de leigos, não identificamos.

O menino demonstrava, ademais, ter problemas neurológicos graves, pois se mantinha um tanto relaxado, no colo paterno, os braços ao longo do corpo, a cabeça pendendo para um lado.

Vez ou outra, o corpo projetava-se para a frente, num movimento de queda, como se a gravidade lhe lançasse um apelo, ao qual ele acedia, sem resistência.

O pai, sem alterar-se ou demonstrar inquietação, tornava a acomodar o filho, secando-lhe a baba, com delicadeza, preocupando-se, com seu conforto.

Nenhum sinal de enfado. Ao contrário, infinita ternura, em cada gesto. 

Chegado ao destino, ergueu-se do banco onde se assentava, tomou seu fardo precioso nos braços, acomodou-lhe a cabeça em seu ombro direito, sob as reclamações insistentes do garoto.

E lá se foram os dois, parecendo um só, ambos de camisa amarela. Um ereto, caminhando firme, debaixo do sol de inverno, gargalhando luzes douradas. O outro, utilizando-o como apoio para seu frágil e desengonçado corpo.

Quanto amor em poucos gestos. Quanta ternura em cada ação.

O menino, exteriormente, não denotava perceber os cuidados de que era alvo. No entanto, ao olhar mais atento não escapava o fato de que as expressões dos sentimentos amorosos o acalmavam.

É como se a ternura tecesse uma rede, para nele embalar o ser deficiente e indefeso.

Lembramos de quantos pais e mães existem, na Terra, bordando carinho na vida de filhos dependentes. Filhos portadores de deficiências físicas e mentais.

Pais e mães que abraçam filhos, de tal sorte alienados que jamais, nesta vida, lhes manifestarão gratidão por qualquer forma.

Filhos com problemas. Seres amados.

Almas que se reencontram sob o pulsar do amor e a grandeza das renúncias.

À noite, quando deixam os corpos, em desprendimento parcial pelo sono, pais e filhos se encontram em jardins espirituais, entre abundância de flores, perfumes e cores.

É ali que o Espírito do filho abraça e chora de emoção: Obrigado, pais queridos, por me ampararem, botão de flor defeituoso, na primavera da vida.

E os pais, entre carinhos, respondem: Filho amado, conta conosco. 

Seremos na Terra, nesta vida, tuas pernas, teus braços, tua mente. O amor que nos une supera toda dificuldade.

Depois, retornam aos corpos físicos e, quando a manhã se espreguiça, e o sol estende sua colcha dourada sobre o dia nascente, eles abrem os olhos na carne e reiniciam suas lutas.

*   *   *

Benditos sejam os que amam, os que agasalham outras vidas renunciando às suas próprias.

Benditos sejam, pais e mães da Terra, mãos aveludadas de Deus, no planeta, sustentando vidas débeis.


Redação do Momento Espírita